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05/09/2008 13:32
NA ESCURIDÃO DA POBREZA
Eram oito horas da noite e fechei a porta, pois o expediente na empresa havia encerrado. No estacionamento da Avenida Presidente Vargas caminhei direto ao carro e entrei, sentindo que alguém me observava. Com as chaves na mão coloquei o motor para funcionar e o deixei esquentando.
Devido pressentimento, novamente abri a porta me dirigindo ao porteiro, conversando sobre o fato dei com os olhos de um fiapo de gente parado entre as grades, que divide o estabelecimento do ponto de ônibus. Como um bicho amedrontado me espiava, através do vidro da janela e, então aliviado pude notar a fragilidade de uma raquítica, que aparentava ter uns oito anos de idade e tremia de frio encostada ao poste.
Após passar pela insegurança, me despedindo do funcionário na portaria, já no carro inclinei-me sobre o banco e, em seguida abaixei o vidro para perguntar a ela: _ o que foi que aconteceu com você? Pensando tratar-se de esmola.
_Imediatamente, num fio de voz infantil me respondeu, nada não senhor. _Por que você estava olhando pelo buraco?
Outra vez ela repetiu nada não_ estou esperando o ônibus. Insistindo quis saber: onde você mora? Na rua do encanamento.
Penalizado, sabendo que era onde tinha de passar. Em seguida perguntei: quer uma carona, eu te levo?
Com timidez ela vacilou em responder. Insistindo aceitou e, abrindo a porta do carro entrou.
Depois se sentou na beirada do banco dianteiro, enquanto o carro lentamente ganhava velocidade. Perguntei seu nome e, ainda tremendo ela disse: _ Graça.
Mas mantinha o olhar fixo para frente e sequer fazia o menor movimento com a cabeça. Tentei puxar outro assunto, sobre o que fazia àquela hora e na friagem, tão nova e longe de casa. Sem esperar a resposta prossegui: quantos anos você tem Tereza? Então disse dez.
O que você estava fazendo ali? A casa de minha patroa era ali perto.
Em seguida, patroa? Que patroa?
Pela resposta, logo fui percebendo que ela trabalhava para alguma família nas proximidades do estacionamento: lavando roupas, varrendo casa, quem sabe até servindo a mesa.
A partir da aí ela foi soltando a lígua, dizendo que entrava as sete e saía às oito horas da noite. Chateado por ouvir esta realidade continuei a dirigir e ela falava com naturalidade sobre o sofrimento do dia a dia. Hoje saí mais cedo. Foi jantarão.
Você jantou? Não. Eu almocei.
Comovido perguntei: não almoça todo dia?
Quando tem comida em casa para levar, eu almoço: minha mãe faz um embrulho de comida.
Agoniado interroguei: e quando não tem?
Não tem, ela parecia até que sorria ao falar, suas feições de criança, encardidas de pobreza podiam ser a de uma velha. Com o relato, eu não me contive mais de aflição, pensando nos meus filhos bem nutridos e neste momento, a cada palavra um engasgo na garganta me afogava.
Na casa não dão comida para comer? Perguntei revoltado.
Quando eu peço dão. Mas descontam do ordenado e minha mãe disse que faz falta, recomendando para eu não pedir.
Em seguida, diminuindo a marcha perguntei: E quanto você ganha nesta casa?
Graça mencionou uma importância tão ridícula, que quase parei o carro por causa dos trocados. Por um impulso queria voltar e bater em alguém daquela família, que se aproveitava da pobre criança. Meter a mão na cara deles era pouco.
Como é que você foi parar nesta casa? Enquanto o carro se aproximava da viela, que dava acesso a sua casa e ela disparou a falar: estava na feira com minha mãe, a senhora passou e pediu para eu carregar as compras até sua casa e aí, no outro dia voltou e pediu a minha mãe para eu trabalhar na casa dela. De imediato minha mãe deixou, porque não podia deixar meus sete irmãos sozinhos, fora os dois grandes que já são soldados. Pode parar aqui moço, obrigado.
Mal parei o carro, ela abriu porta e soltou. Saiu correndo como qualquer criança de sua idade, perdendo-se na escuridão da miserável viela.
Desde então as palavras da raquítica menina ecoam por justiça social e perdurará, enquanto não chega uma alma vibra, atormentando as emoções de inocentes trabalhadores, que amargurados sofrem com a presença do rosto de criança, condenadas pelo próprio ser humano, quando agrega a alheia desgraça social.
enviada por EDHILARIO
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